A Escuna

por escritor Email

Ela era linda, com suas linhas harmoniosas e curvas quase sensuais. Tinha vinte metros de convés e chamava a atenção de todos por onde navegava. Chegaram até a dizer que se tratava do barco mais bonito construído em São Luiz. Eu mal podia acreditar que estaria novamente respirando aquela brisa marinha a bordo de uma escuna toda construída com madeiras nobres da Amazônia. Isso porque, em 1983 já tivera a oportunidade de navegar como tripulante em uma escuna parecida. Foram quarenta e poucos dias de belíssima viagem pela costa, entre Belém e Santos, incluindo o arquipélago de Abrolhos.

Resposta:

Desta vez, em 1986, o comandante do barco anterior me convidou novamente para fazer parte da tripulação, que deveria trazer um barco são e salvo desde São Luís até Parati. Tal barco era de propriedade de um amigo dele e deveria ser, pelo menos em tese, uma cópia fiel daquele construído em Belém. Tendo na memória as belas recordações da viagem anterior, não hesitei em aceitar o convite, e no dia seguinte pedi demissão do emprego que detestava. Ao chegar à capital maranhense, mil e um detalhes tiveram que ser pensados e resolvidos, tais como:ajustes mecânicos do leme, amaciamento do motor, instalação de geladeira, supermercado, testes de rádio, papelada na capitania e o "diabo a quatro".

Ao final de duas semanas tudo ficou pronto. A tripulação estava assim composta; o comandante José, eu, um marinheiro já idoso e um rapaz, que na verdade era mais carpinteiro do que marujo. Havíamos contratado também uma mulher maranhense como cozinheira e que dizia ter experiência a bordo de barcos em "águas abrigadas". A época do ano não era a melhor para se navegar no sentido que desejávamos, ou seja, costeando o litoral norte até Natal. Nestes meses o vento sopra forte em direção ao Caribe, acompanhando a costa norte. Da mesma forma, a corrente também nos seria contrária durante a navegação. Em resumo: vento e mar contra! Não que eu seja supersticioso, mas uma viagem que tem início num dia 6 de agosto...!

Sabendo destas dificuldades, a dupla de "marujos" não chegou a um acordo com o comandante a respeito do salário a receber por tão árdua missão e acabaram por abandonar o barco às vésperas da partida, nos deixando a ver escunas! Imediatamente tive uma espécie de pressentimento; aquilo me pareceu um sinal, um aviso de Netuno. Não bastando o abandono, os dois incitaram os marinheiros e o pessoal do cais contra nós, de forma que passamos a ser vistos como "personas non gratas" no local. Zarpamos rapidinho daquele ancoradouro e fomos parar em frente ao iate clube de S. Luiz, onde permanecemos por dois dias à procura de novos tripulantes.

No terceiro dia chegaram dois "cabras bons", experientes, trabalhadores e que haviam sido recomendados por um administrador do iate clube. Também chegou o proprietário da embarcação com sua família. É que eles queriam dar uma volta pela Baía de São Marcos antes do início da viagem. A cozinheira caprichou no banquete; até o capitão dos portos foi convidado para o almoço. O dono, com o peito devidamente estufado, tirou muitas fotos ao timão.Todas as velas foram içadas e a escuna deu um show de beleza pela baía.

Passado o foguetório, o proprietário voltou para um hotel com sua família. Ficou combinado que a partida definitiva seria no dia seguinte. O comandante José e eu fomos até a capitania, enquanto que os dois marinheiros buscavam o restante de suas bagagens. Ao voltarmos para a escuna, demos pela falta da cozinheira. Talvez, por recomendação de alguém ou por algum sexto sentido, não sabemos, o fato é que a mulher desapareceu, sumiu, escafedeu-se! Deixou para trás uma mala de roupas e alguns objetos pessoais. Ninguém soube informar a respeito do paradeiro da dita cuja. Para mim, aquilo representava um segundo aviso de Netuno.

De saco cheio e com ganas de levantar âncora zarpamos assim mesmo, deixando para trás o iate clube que tocava em alto e bom som "Entrei de gaiato num Navio", da banda Paralamas do Sucesso. Não sei porque, mas fiquei com a nítida impressão que aquela música tinha algo a ver comigo...

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