A Maldição do Kaka

por escritor Email

Lá pelos idos de 1977 ou 1978, o Beck e a Tereza resolveram fazer uma viagem num pequeno veleiro de madeira — um snipe — desde Santos até a Ilha Grande no Rio. Como o snipe não tem cabine o plano era acampar pelas praias do caminho. O barco já não era assim tão novo, mas a determinação daqueles dois compensava esses e outros pequenos detalhes.

Resposta:

Um amigo nosso da época, o Leon, emprestou a carreta e levou o veleiro (com o sugestivo nome de Kaka) até Santos. Leon, Walter e eu éramos da equipe de apoio, resgate e... "orações". Tratava-se de uma excursão inusitada para o CEU, merecendo portanto, todo apoio físico e moral aos empreendedores.

Zarparam com bom tempo rumo ao litoral norte de SP, enquanto voltávamos para casa. Dias depois, toca o telefone. Era o Leon avisando que os dois velejadores haviam chegado a Ubatuba, mas, havia um problema. O mastro do barco estava quebrado e era preciso buscá-los. O Walter e o Leon não podiam ir por motivo de trabalho. Sem problemas. Dei o cano no serviço, montei meu fusca — bala equipado com engate e zarpei para Santos onde estava a carreta. De lá, seguiria para Ubatuba. Um pequeno detalhe se colocava entre nós. A estrada entre Bertioga e São Sebastião era de terra, e ruim! A alternativa de voltar a São Paulo, pegar a via Dutra e Tamoios me pareceu onga demais. Afinal, o que eram 100 km de terra para um fusca forjado na dureza das estradas do Betari?

Deixei a balsa de Bertioga para trás e encarei aquele trecho da Rio — Santos que ainda aguardava por asfalto. Fazia um calor tremendo e o barulho daquele engate com a carreta completava a sinfonia da encrenca que estava por vir. Após uma hora e meia, aproximadamente, naquele estrada esburacada eu já me perguntava o que estava fazendo ali. Foi quando, de repente, ouvi uma nota diferente naquele ranger de metais. Olhei pelo espelho e vi que estava arando a terra da estrada com a ponta do eixo da carreta, enquanto um pneu passava alucinado, voando baixo, rente ao retrovisor. Fiquei ali parado, incrédulo, olhando aquele pneu ir embora sozinho, saltando pedras e buracos até cair de exaustão lá longe. O rolamento da carreta estava simplesmente "moído"; a panela, os parafusos, porca e cupilha, tudo havia ficado para trás. Enquanto procurava pelas peças ia pensando: vou aguardar que passe um veículo e pedir ajuda. Acontece que naquela época ainda não era moda esse negócio de off road. Pessoas normais evitavam viajar por estradas ruins. Nem ao menos um caiçara de bicicleta deu o ar da graça. O jeito foi desengatar a carreta, arrastá-la para o meio do mato e escondê-la com vegetação. Recolhi as peças, bem como o outro pneu e joguei tudo dentro do fusca. Fiz um marco de pedras no local e anotei a quilometragem. Manobrei e tomei o rumo de volta para casa. O resgate do Kaka teria que esperar, e depois, pensei: "o Beck é compreensivo, ele irá entender"!

Chegando a São Paulo, contei o ocorrido ao dono da carreta, que logo providenciou peças novas. Não tínhamos como avisar Beck e Tereza sobre o acontecido. Ficamos aguardando ligação dele, que não tardou a chegar: "Afinal, essa p*** de resgate vem ou não?"! No final de semana seguinte, Walter, Leon e eu voltamos ao local do incidente. A carreta ainda estava lá, foi consertada e o barco pôde então ser levado de volta a S. Paulo. Entretanto, a maldição do Kaka continuou. O barco ficou largado lá na represa do Guarapiranga, até que num dia inspirado o Beck resolveu me presentear com o dito cujo. O casco estava meio, digamos, podre; decidi então usá-lo apenas como molde para laminar um novo em fiberglass. Um amigo emprestou um terreno em Santo Amaro, perto de casa, onde iniciei o trabalho com a fibra.

Neste mês de julho de 2008, comemorei com bolo de chocolate, junto à família, os 30 anos de construção do "filho do Kaka". Durante esse tempo, o novo casco foi : despejado várias vezes do seu local de construção: transportado para a zona leste (Artur Alvim) onde tentaram roubá-lo; quase destruído por um inquilino inadimplente; abandonado por seu construtor durante 20 anos e transportado com dificuldade para Ilhabela.

Ainda tenho esperança de vê-lo navegando algum dia. Tenho certeza de que se precisar de algum apoio logístico por parte dos amigos celestes poderei contar com vocês, não é celestes? Afinal, essa história de maldição é pura fantasia Holywoodiana, não acham?

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