Surpresas do Peru

por escritor Email

Agosto, 1987.

Bem cedo nos dirigimos à Plaza de Armas em Chiquian. Havíamos concluído o circuito ao redor da Cordilheira Huayhuash. Foi uma belíssima caminhada de nove dias,contemplando picos nevados, glaciares, lagunas e aldeias pitorescas. Como não falo o idioma quechua e nem possuía um bom mapa da região, contratei um guia peruano. Seu nome era Vicente, era baixinho e com cara de Inca. Sua profissão era a de serralheiro; foi um ótimo guia e acabamos por nos tornar amigos.

Resposta:

Sentados na Plaza, aguardávamos o caminhão que nos conduziria de volta a Huaraz. Foi quando se aproximou de mim um mochileiro alemão, de nome Klauss e que não falava uma palavra de espanhol! Conversamos um inglês arranhado e descobri que ele queria saber do ônibus para voltar. Ônibus? Ora, estávamos no interiorzão do Peru, rodeados de montanhas; deveríamos dar graças a Manco Capac se houvesse uma confortável carroçaria de um Volvo ou de um Scania. Percebi que ele não gostou muito da idéia de viajar como "pau de arara", mas conformou-se.

Chegou, enfim, o tão esperado caminhão. O grupo aumentara razoavelmente: campesinos, cholas, caixotes, engradados, fardos e... diversos em geral. Ocupamos o melhor lugar, ou seja, a melhor tábua encostada à boléia. A carroçaria tinha suas laterais altas, de forma que, sentados, não tínhamos visão do que se passava do lado de fora, a não ser ficando de pé sobre o banco.

Com um tranco nada suave o motorista arrancou da inércia o seu pesado Truck. "Não será fácil", pensei. "Cinco horas até Huaraz em estrada poeirenta e com vento gélido sobre nossas cabeças. Ainda bem que o caminhão não está lotado", murmurei para a minha fiel mochila.

Após algumas curvas e contra-curvas, o caminhão parou e começou a manobrar de ré até parar de vez contra um barranco. "Essa não! Vão embarcar mais gente. Que saco!"

Seguiu-se um silêncio estranho que só foi quebrado quando as pesadas portas traseiras se abriram. A cena que vi está gravada para sempre nos meus neurônios. Vocês conhecem aquele símbolo da bolsa de valores de Wall Street? Isso mesmo. Touro! Dois enormes touros com enormes chifres estavam ali,parados,observando-nos com aquela expressão dos Chicago Bulls, prontos para resistir ao embarque! Lembro-me de ter ouvido uma voz dizendo baixinho" Oh mein Gott"! Era o mochileiro alemão, indignado, expressando seu espanto.De minha parte pensei: "e agora, esqueci minha capa de toureiro; vim preparado para subir montanhas, não para uma corrida de touros"!

O que se seguiu foi uma sucessão de cenas dantescas. Seres humanos tentavam a todo custo convencer seres bovinos, tão ou mais assustados que nós, a entrar num veículo cheio de seres humanos. Os bois relutavam com personalidade. Foram necessárias inúmeras estocadas, empurrões gritos e palavrões em Quechua para que se conseguisse, finalmente, embarcar os animais. O grupo se afastou rapidamente da porta traseira do caminhão abrindo espaço e se aglomerando em nossa direção.

Vocês devem imaginar: "bom, mas pelo menos eles estavam bem amarrados". Porra nenhuma! Nem ao menos uma cordinha nos chifres! Quando ia me refazendo do susto e perguntar sobre a corda, já era tarde. As portas se fecharam e num arranco brusco o motorista deixou bem claro quem comandava as coisas por ali.Obviamente, ninguém mais reclamou. Nada mais normal para aquelas cholas e campesinos acostumados à dura vida no altiplano. Olhavam para nós, os gringos, cochichavam qualquer coisa e riam à larga!

Não demorou muito, os dois bovinos sem muita educação, começaram a fazer suas necessidades fisiológicas de forma prazerosa. Parecia de propósito, ou melhor, de sacanagem mesmo como vingança pelos maus tratos recebidos.

A estrada de terra, esburacada, seguia íngreme ora subindo ora descendo. Os infelizes animais escorregavam na própria merda e caíam por cima das pessoas, que se esquivavam dos chifres e dos seus enormes e sujos traseiros. Passageiros? Os humanos defendiam-se como podiam, empurrando ou desviando-se dos chifrudos. Se vocês acham desconfortável viajar como "pau de arara" é porque ainda não viajaram como gado!

O tormento durou cinco horas. O vento gelado dos Andes e a poeira fina temperavam este quadro, dando um sabor especial ao Prato Peruano! Uma forma de escapar daquela dura realidade era sonhar com o banho caliente e demorado que tomaria ao voltar para o hotel. Uma janta, seguida de uma boa noite de sono me deixariam novo outra vez!

Ao chegarmos em Huaraz, a carga humana foi desembarcada enquanto que a carga bovina seguiria ainda mais adiante. Saltei rapidamente passando a mochila sobre a lateral do caminhão. Despedi-me do Klauss e do Vicente e fui direto para o hotel.

Lá chegando, bem que tentaram ser compreensivos comigo. Não havia vaga e faltava água para o tão sonhado banho! Tive que sair procurando outro hotel. Era alta temporada e só consegui uma vaga num dos mais fuleiros hotéis de Huaraz, de nome Barcelona. Mal sabia que surpresa me aguardava ali, mas, isso já é outra história...

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