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Trogloditas na Serra Fina
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Claudinei "Cao" Dias da Silva, agosto de 2004
Quando comecei a fazer caminhadas, em 1989, comprei todos os roteiros que o Sérgio Beck publicava. O relato dele sobre a travessia da Serra Fina, dizendo que “...6 dias depois, mais morto que vivo, saía finalmente do outro lado...” me fez jurar que nunca faria aquela caminhada. Mas nada como o tempo para fazer-nos mudar de idéia sobre os “nunca”.
Assim, 15 anos depois, resolvi aceitar um dos convites do Espanhol, meu colega do CEU, e topei fazer a travessia no início das minhas férias, em agosto de 2004. Por falta de outros candidatos em condições físicas – leia-se trogloditas – resolvemos ir só nós dois. Peguei o que pude de informações via internet. Eu também contava com a memória do Espanhol, que já subira a Pedra da Mina pela trilha do Paiolinho e tentara uma incursão – frustrada – à Serra Fina anos antes.
Devido a uma frente fria, adiamos a saída da noite do sábado, 8 de agosto, para a do domingo. O ônibus da viação Resendense para Cruzília, MG, que deveria sair às 23:15, saiu às 23:40. Depois de parar em São José dos Campos, Taubaté, Aparecida e outra cidade que nem deu pra ver qual era, o busão parou e saiu de Cruzeiro, e pegou a serra na direção de Passa Quatro. A noite era fria, tinha neblina, e o sono fora picado até ali.
Descemos na estrada de terra para a Toca do Lobo às 4:25 – quase 1h30 de atraso em relação ao que planejáramos para o início da caminhada. E atrasamos mais 1h10 porque o Espanhol achou que o motorista se enganara e nos deixara na estrada para o Paiolinho. Voltamos mais ou menos 1 km pelo asfalto. O céu limpara-se e a luz da lua minguante era suficiente para caminhar até a estrada anterior. Mas não tinha como saber se era a certa ou não. Só quando apareceu um cara de bicicleta, muitos minutos depois, é que pudemos perguntar e saber que a estrada certa era... onde tínhamos descido do ônibus! Toca andar de volta para lá.
Iniciamos a caminhada na estrada de terra às 5:40. Subindo sempre, com ar frio e vento gelado, fizemos os 8 km em mais ou menos 3 horas até o início da trilha, cruzando com pessoas sonolentas, indo para o trabalho ou para a escola naquela manhã de segunda-feira, enquanto nós íamos para as montanhas. Nada como estar de férias – ou desempregado! Paramos no início da trilha para tomar café. O Espanhol pegou o fogareiro, a panela, o leite – e cadê os fósforos??? Tinham sumido, junto com outros itens (incluindo a escova de cabelo que ele tinha havia 35 anos!), tudo no mesmo saco, que o Espanhol carregava na mão ao entrarmos no ônibus, que eu colocara no bagageiro interno... e nenhum de nós pegou na hora de descer. A essa altura, devia estar indo para a garagem da Resendense.
Começou ali uma das muitas sessões de praguejamento do Espanhol (eu também tive as minhas...). Aliás, ele me lembrou que era galego, e que galegos xingam em estéreo. Pois nessa caminhada xingamos em mono, estéreo, quadrifônico, dolby, surround... Por sorte e sugestão da minha querida esposa Pat (“dois trogloditas que nem vocês indo sozinhos pra essa caminhada? Leva isso, aquilo, aquilo outro...”), eu tinha fósforos e isqueiro de reserva, e pudemos tomar nosso café-da-manhã quentinho, coisa muito boa nos cerca de 5°C que fazia àquela hora. Quase que a travessia terminava antes de começar.
Capim Amarelo
Recomeçamos a andar: sobe, sobe, e logo entramos na crista, e sobe, sobe, sobe... vento gelado, neblina vindo de leste com o vento e condensando em nuvens ao subir a crista, criando uma coluna e depois uma parede branca à nossa frente. A mochila de 23 kg me fazia suar em bicas, apesar da temperatura baixa e do vento frio. Sempre pela crista, subindo, subindo, víamos o caminho que ficara para trás, e também o quanto ainda faltava subir. Víamos o Pico dos Marins ao longe. O Pico do Capim Amarelo, nosso destino naquele dia, parecia uma torre inalcançável à nossa frente.
Quando tínhamos de descer de um cocuruto para outro e depois voltarmos a subir, praguejávamos contra a perda da altitude tão suada. Como disse o Espanhol, não queríamos perder nem 50 cm de altitude, quanto mais os 100 m que às vezes tínhamos de descer. E com aquele peso todo na mochila, eu acrescentei: não quero gastar nem um joule a mais que o necessário! Depois de um trecho de escalaminhada estreito, escorregadio e exposto, atingimos o alto do Capim Amarelo. Estávamos a 2497 metros de altitude, quase 1500 metros de desnível em relação ao início da caminhada. Puta visual! Puta canseira!
Após 20 min de pausa para recuperar o fôlego, hidratar-se e fotografar, seguimos em frente, ou melhor, para baixo. Outra pirambeira, escorregadia, com bambuzinhos, para descer a um cocuruto a cerca de 2200 metros de altitude – o acampamento Maracanã – onde montamos a barraca no meio de um capinzal abrigado do vento. Eram 16:50, mas preferi ficar ali, para comer e descansar, em vez de arriscar mais 1h30 até o próximo ponto de acampamento.
Céu límpido, coalhado de estrelas, e frio! Às 19:00 a temperatura já estava perto de 0°C. De madrugada chegou a -5°C. A barraca congelou-se por dentro e por fora. Apesar de eu ter de levantar às 4:00 para mijar, o sono foi bom. Demorei para tomar café e tivemos de esperar a barraca secar. Só saímos para caminhar às 8:40. A saída pelo capinzal era confusa, com várias trilhazinhas. Demoramos a achar a certa, que enveredava por mais bambuzinhos, que aumentavam os nossos tropeções, lanhadas nos braços, espetadas nas mãos – e os nossos palavrôes! Foi mesmo uma boa decisão ter acampado ali em vez de ter tentado seguir em frente, na tarde anterior.
Pedra da Mina
Chegamos ao ponto onde deveria haver água. Descendo mais uma trilha estreita, íngreme e escorregadia no meio de bambuzinhos que tentavam nos agarrar, o Espanhol achou uma poça rasa, de uns 50 cm por 20 cm, com uns 5 cm de profundidade. Levamos 40 minutos para encher duas garrafas de 2 litros, pegando a água com a canequinha do Espanhol e coando-a no pano (protetor de nuca) do boné dele. Em tempos de menos chuva – este inverno estava atípico, chovendo muito – talvez essa poça seque.
Sempre pelas cristas, ora com bambuzinhos, ora com capim, piramba para cima, piramba para baixo, finalmente chegamos aos pés da Pedra da Mina. Subimos a piramba pelo capim e atingimos os 2797 metros de altitude do quarto pico mais alto do Brasil. Dava para ver o Marins e muito além. Com o céu limpo, dava para ver a Pedra do Frade e o que deveria ser o Pico do Papagaio da Ilha Grande, num lado; e, no lado oposto, Itatiaia: Prateleiras, Couto, Agulhas Negras, Asa de Hermes, Serra Negra, mais o Picú, até o Pico do Papagaio de Aiuruoca. Uma vista esplêndida, 360°, onde dava para ver o caminho da vinda e o que ainda restava até o Pico dos Três Estados: muito chão ainda a percorrer.
Lanche, escrever no livro do cume, e adicionar mais um livro, já que o Espanhol levara um livro novo para trocar o anterior, todo preechido. Como alguém chegou antes e colocou um livro novo, ele acrescentou o que levara, colocando a mensagem que era para “todos os maiores de 50 anos que chegassem àquele cume” – pura sacanagem dele, já que ele tinha mais de 50, mas eu não.
Descemos a piramba pelo lado oposto ao da subida, menos íngreme e rochoso. A idéia era acampar no Ruah, mas parecia haver um descampado uns 300 metros adiante, e seguimos para lá. Ou melhor, tentamos. Muitas trilhazinhas se misturavam e todas saiam no charco que era o vale... O descampado devia ser um charco, também. Desviando dos trechos mais afundadiços e do rio, seguimos pelo capinzal, na direção da garganta da saída, com o sol já se escondendo atrás dos picos e nenhum sinal de trilha.
Após verificar um roteiro plotado de GPS que o Espanhol levara impresso, e a indicação de acampamentos que eu levara, abastecemos todos os cantis, já que aquele era o último ponto d’água até o final da trilha. Seguimos em frente, tentando chegar ao Brecha, um pico de 2500 metros que era o próximo ponto de acampamento, já que voltar pelo charco ao Ruah seria muito difícil. Com 3 kg a mais de água na mochila ficava mais difícil atravessar o capinzal, mas achamos algo parecido com um caminho, meio fechado, onde achamos que deveria estar a trilha, junto ao rio.
Apareceram algumas fitas em arvorezinhas, no rio, confirmando nossa escolha de caminho. Com a luz quase nula das 18:00 (no Inverno), subimos o pico, entre capim, árvores e pedras, até atingir o cume, às 18:25. O local de acampamento era pequeno e desprotegido do vento, mas dava para montar a barraca, comer e descansar. Às 20:00 já fazia -3°C. A madrugada prometia ser mais gelada que a anterior. Mas não foi. O vento aumentara, o que deixou o Espanhol com medo de mudança de tempo e de eventualmente termos de ficar no lugar por falta de visibilidade.
Três Estados
Com a barraca seca graças ao vento, a montagem da mochila foi rápida na manhã seguinte. Sem café quente – esquentar a água tomaria tempo – e com calor apesar do vento – estava 4°C positivos! –, às 7:26 partimos para o último dia de caminhada. O plano inicial era de quatro dias, mas, com a velocidade que conseguimos, o receio de ficar presos ali por falta de visibilidade e de ficarmos sem água, decidimos que completaríamos a trilha naquele dia.
Cristas, sempre pelas cristas; sobe, desce, escorrega, xinga, sua, pára para recuperar o fôlego, enfrenta capim, enrosca em bambuzinho, cata lixo, xinga mais... tentávamos manter 40 minutos de caminhada por 10 de descanso, mas nem sempre era possível. Muitas vezes era preciso parar antes, nas pirambas. O sol nos ressecava como não acontecera nos dias anteriores, e a água ia acabando rapidamente. Minha salvação para acabar com a sede foram uma mexerica e uma maçã, que eu guardara cuidadosamente esse tempo todo. Só mais tarde me toquei que estivera fazendo reposição apenas de água e não de sais minerais. Por isso bebia água cada vez mais e a sede não passava.
Chegamos ao Pico dos Três Estados, onde fizemos a maior coleta de lixo de toda a travessia. Lanchamos, nos hidratamos e avaliamos o caminho à frente. Pelas contas do Espanhol, ainda estava muito longe. Comecei a achar que o anoitecer nos encontraria ainda na trilha. A saída confusa do Três Estados, perdendo a trilha no capinzal, aumentou minha preocupação. Repetimos o esquema do dia anterior: vimos qual a direção mais provável e começamos a descer varando mato. 100 m piramba abaixo reencontramos a trilha. E tome piramba! Usava o bastão de caminhada, que a Pat me emprestara, como bengala nas descidas íngremes e escorregadias, já que as pernas estavam moles, realmente detonadas. E nas subidas usei tanto o bastão para me apoiar e me puxar, que o tríceps do braço direito já estava tão cansado quanto os quadríceps! Nunca peguei tanta pirambeira duma vez só!
Quando a trilha começou a descer e virou à direita, nos afastando da direção que o Espanhol achava ser o rumo do final da caminhada, ficamos preocupados. Mas a trilha estava bem definida demais e não surgiu nenhuma bifurcação que pensasse em seguir outro caminho. Por volta das 16:00 pegamos um trecho quase plano, livre, já nas terras do antigo Sítio do Pierre. O progresso foi mais rápido, até a trilha virar uma estradinha e chegarmos ao sítio às 17:10. Felizmente a lembrança do Espanhol estava errada! Sítio deserto, sem ninguém para dar informações. Após algumas considerações resolvemos descer a estradinha de terra. E 50 minutos depois chegamos ao asfalto, no escuro das 18:00. Lá em cima da serra ainda tinha alguma luz, mas ali embaixo, nada.
Pés no asfalto
Subimos a estradinha no escuro, de olho nos faróis que chegavam até nós, na esperança que algum fosse de ônibus da Resendense ou da Cidade do Aço, mas eram só caminhões. Cansados, mas irritados e teimosos como bons espanhóis – ele é 100% e eu sou 25% - aceleramos o passo até chegar à Garganta do Registro, em marcha forçada, em outros 50 minutos. Uma Coca-cola e uma cerveja geladas, para sentir de novo o sabor da civilização. Percebi que logo o pessoal estaria tomando cerveja em mais uma reunião do CEU (era quarta-feira) no Clube dos Professores, na USP, no meio de São Paulo, enquanto nós tomávamos a nossa na saída da montanha, após 3 dias de caminhada. Uau, isso é que é fazer montanhismo de verdade!
Para o final da epopéia, faltava voltar para casa. Descobrimos que não passaria mais ônibus por ali até o dia seguinte. Sem transporte, ou dormíamos ali, na Garganta do Registro, do jeito que desse - até para montar a barraca seria difícil – ou teríamos 26 km de caminhada até Engenheiro Passos. Depois de muita conversa, o dono do boteco ligou para um conhecido, que nos transportaria no carro dele até Engenheiro Passos. O rapaz, com um amigo, tinha um olhar assustado, meio desconfiado, olhando para o Espanhol e eu: suados, sujos, com mochilas enormes, cara de poucos amigos... Pediu 30 reais para nos levar. O Espanhol na hora pagou 40 e convenceu os dois a nos levarem. Claro que não foi tão fácil. O rapaz estava com um fogão (!!) no porta-malas do Kadett. Como o amigo ia junto com ele, nós tivemos de levar nossas mochilas cargueiras no colo. Ainda foi melhor que dormir ao lado da rodovia ou caminhar 26 km.
Em Engenheiro Passos pegamos o ônibus das 20:00 até o Shopping Graal de Resende, onde, às 23:30, peguei outro da empresa 1001, que ia de Niterói para São Paulo. O Espanhol não quis pagar a tarifa inteira, pois estávamos na metade do caminho, mas a empresa não dava desconto. Ele preferiu esperar o próximo ônibus da Resendense, às 3:00 da madrugada – e ver se descobria que fim levou o saco com os fósforos e a escova de cabelo... No início da manhã cheguei em casa suado, sujo, cansado, dolorido, com vários cortes, lanhados e espetados, mas inteiro e satisfeito pela empreitada bem realizada. Não foi tão traumatizante quanto o Beck descrevera, mas é mesmo uma das caminhadas mais pesadas que já fiz.
Cao (Claudinei Dias da Silva) participa do CEU desde novembro de 1988 e é sócio desde março de 1989.
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